Apenas Opinião

Terça-feira, Julho 15, 2008

ROWLAND, Laura Joh. Shinju – traição e mistério no Japão dos xoguns. São Paulo: Editora Best Seller, 1994.
Shinju é meu primeiro romance policial oriental e foi “consumido” em exatos dois dias. O bom ritmo empregado por Rowland e a ânsia em chegar ao desfecho do mistério me auxiliaram nessa empreitada, fazendo com que as 394 páginas fossem muito bem aproveitadas.
O livro é ambientado no Japão e começa com a morte de duas pessoas: um artista, sem grande relevância na sociedade – Noriyoshi; e a filha de um dos mais importantes líderes da cidade – Niu Yukiko. Tudo leva a crer que o casal cometeu shinju (um ritual suicida comum entre os amantes impedidos, por suas famílias, de viverem juntos), porém um mistério muito maior ronda esse crime.
É quando entra na história um samurai, Sano Ichio, que graças a uma boa influência de seu pai, ganhou como padrinho um dos mais importantes samurais da região. Seu padrinho lhe deu um cargo importante da cidade. A partir desse momento, o samurai Sano Ichio passou a ser o Yoriki Sano-san (uma espécie de delegado regional).
A burocracia do novo cargo contrastava com a vida que levava anteriormente como pesquisador e professor de História e seus dias atrás de uma mesa de escritório eram demasiados sofridos para ele. Desta forma, o novo yoriki decidiu ir a campo para “sentir-se vivo”. Esta atiitude irritou seu superior (Ogyu) e tornou sua presença ainda mais incomoda para os demais yorikis que tinham seus cargos passados de pai para filho e não admitam um simples samurai se igualar a eles.
Como punição para seu comportamento indisciplinado, Ogyu encarregou Sano de cuidar da parte burocrática do shinju que acabara de acontecer, foi quando sua vida se transformou por completo.
Deste momento em diante o samurai começa uma severa investigação sobre o shinju e, com a ajuda do médico legista do presídio onde se encontrava o corpo de Noriyoshi, descobre que o mesmo foi assassinado. Sano decidi conversar com a Sra. Niu – madrasta de Yukiko- e fica desconfiado por seu comportamento, principalmente após conhecer seu filho – Niu Masahito.
Desconfiado de quem poderia ter cometido os assassinatos e sem qualquer prova contundente que atestasse sua versão, Sano passa a investigar por conta própria e acaba pondo em risco a vida de uma série de pessoas, entre elas, seu assistente Tsunehiko e o lutador de sumô Raiden.
Suas investigações e a insistência em achar a verdade bateram de frente com os interesses de Ogyu e da família Niu, fazendo com que Sano fosse destituído do cargo e, mais adiante, caçado como criminoso pela polícia.
Envolvido até os ossos na história e sem poder recuar, Sano descobre não só o assassino do casal e de outros (!), como também algo muito maior que estava por trás dos crimes: uma conspiração dos filhos dos daimyos (líderes) da região contra o xogum (governante) Tokugawa Tsunayoshi. O plano dos jovens, todos de vinte e um anos, era matar o governante e assumir o poder sobre a região, fato que desencadearia uma sangrenta guerra que duraria por séculos.
Se Sano sobreviveu à caçada e se os jovens conseguiram atingir o objetivo de matar o xogum, são privilégios que somente o leitor do livro terá após percorrer sem qualquer enfado as numerosas páginas de Shinju.

Quinta-feira, Junho 05, 2008

CALLADO, Antonio. Quarup. 4. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969.
A obra Quarup, de Antonio Callado, narra a história de Nando, um jovem e submisso padre que trabalha no ossuário de um mosteiro em Pernambuco e tem como ideal de vida catequizar os índios do Xingu. Porém, Nando teme que não consiga honrar seu voto de castidade estando em contato com as índias nuas e isso faz com que ele adie ao máximo a viagem. Ainda no mosteiro ele conhece Levindo, um revolucionário refugiado que trabalha junto às Ligas Camponesas, e sua noiva Francisca, por quem nutre um amor platônico.
A primeira grande ruptura que o personagem sofre acontece quando ele é iniciado sexualmente pela amiga inglesa Winifred. A partir desse trecho é que Nando se sente pronto para cumprir sua missão no Xingu. A passagem pelo Rio de Janeiro mostra a força que tem o exterior sobre o comportamento do jovem padre. Integrado ao grupo carioca, ele se envolva sexualmente com outras duas mulheres e experimenta a “liberação geral dos sentidos” (1969, p.109) no uso de éter.
Essas experiências marcam no romance o início do autoconhecimento do personagem, que começa a abandonar os sentimentos platônicos e passa a viver a realidade a partir do terceiro e emblemático capítulo intitulado A maçã, o que simbolizaria seu abandono do paraíso.
Nando parte para o Xingu em 1954, às vésperas do atentado contra Lacerda e últimos dias do governo de Getúlio Vargas.
Agora envolvido com o movimento de proteção aos índios, Nando anseia a visita do presidente Vargas para a inauguração do Parque Nacional do Xingu, que garantiria a preservação das terras indígenas. A festa aconteceria junto com a celebração do Quarup – ritual indígena para celebração dos mortos. No entanto, durante os preparativos, chega pelo rádio a notícia do suicídio de Getúlio. A esperança da criação da reserva morre com ele.
O romance sofre um corte temporal e todos se reencontram ainda no Xingu, alguns anos mais tarde, agora para uma expedição para o Centro Geográfico do Brasil. É nesse período que Nando reencontra Francisca, que perdera o noivo morto pela polícia. O amor entre os dois deixa de ser platônico e eles têm o primeiro contato sexual. Após vários perigos, o grupo encontra o centro geográfico. Francisca cumpre a promessa que havia feito a Levindo e leva a terra do centro para Pernambuco. Nando vai para Pernambuco com Francisca, renuncia ao sacerdócio e passa a trabalhar na alfabetização dos camponeses. No entanto, Francisca insiste em respeitar a memória do noivo morto e se afasta de Nando. Este por sua vez resolve ajudar no trabalho das ligas camponesas. Com o golpe de 1964 Nando vai para a cadeia e Francisca se muda para a Europa.
Nesse trecho de Quarup, até o afastamento do casal, é possível perceber que o personagem tenta se aproximar de Francisca inserido no ideal que ela estabelecera.
Ao sair da prisão Nando se muda para uma casa de praia – herança dos pais –, lá ele decide se dedicar ao “apostolado do amor” (Idem, p. 378). Na sua nova missão, Nando ensina a arte de amar que aprendeu com Francisca. Distribui amor às mulheres feias para que se sintam belas e ensina as suas técnicas amorosas a vários “discípulos” que encontra na região. Paralelo à nova atividade, Nando reencontra seus companheiros de luta política e descobre que eles estão organizando um novo movimento revolucionário, desta vez no sertão.
Nando resolve reuni-los em sua casa para a celebração dos dez anos de morte de Levindo e prepara um banquete nos moldes do Quarup. Todos são chamados, pescadores, prostitutas e revolucionários. A cena do grande jantar é simultânea à Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Participantes da Marcha invadem a casa e Nando é espancado quase até a morte. Ele é socorrido por uma prostituta e pelo amigo e guerrilheiro, Manuel Tropeiro, que o leva para a casa de padre Hosana.
Depois de alguns meses Nando se recupera e decide seguir para o Sertão. Quer se juntar as Ligas Camponesas e continuar a luta, mas antes resolve passar em sua casa na praia para pegar as cartas enviadas por Francisca. Dois policiais fazem a vigília da casa desde o jantar. Nando arma um plano com Manuel, mas ambos são pegos. Nando consegue matar os guardas e pega as cartas. Nesse momento ele se despede do Recife e de Francisca. Nando então percebe que ela já não é mais uma mulher de carne e osso e sim um ideal, uma essência.
No último capítulo do romance Nando está a caminho do sertão para lutar junto às Ligas Camponeses e o autor resume a relação do personagem com sua própria identidade no trecho:

“Nando relembrando coisas da vida inteira mas sem sentir nenhuma ligação com os pensamentos e sentimentos que tivera: como homem feito que encontra um dia numa gaveta cadernos de colégio. Estava descontínuo, leve, vivendo de minuto a minuto. Só tinha como sensação de continuidade o fio de ouro de Francisca, assim mesmo porque era um fio fiado com astúcia na trama do mundo a vir. Não vinha propriamente do passado”. (Idem, p. 468).

Por fim Nando troca de nome e passa a se chamar Levindo. Ele assume a identidade de um revolucionário e se une à esquerda na luta pelo sertão. Não ama mais Francisca, apenas a guarda na lembrança. O livro termina mostrando como é complexa a relação do indivíduo moderno com o mundo em que vive. Para Nando a melhor opção foi abandonar sua própria identidade e encarnar a de um mito, de um exemplo a ser seguido. Levindo trazia o estigma de herói, era focado em um único objetivo e morreu lutando por ele.
Ao viajar para o sertão Nando relembra as situações pelas quais passou como se fosse um espectador. Percebe que sua vida possui um fio condutor presente no ideal de Francisca. E compreende que sua constante inquietação é dada pelo fato de tentar viver em um mundo que não é ao seu, o que remete ao sentimento de não ser personagem de sua própria história.

Quarta-feira, Junho 04, 2008

DOSTOIÉVSKI, Feódor. Crime e Castigo. São Paulo: Matin Claret, 2002.
O livro Crime e Castigo, escrito em 1866 por Feodor Dostoiévski tem sua história ambientada na Rússia czarista do século XIX e narra a vida de um jovem estudante que abandona sua cidade e se muda para São Petersburgo para estudar medicina. Raskólnikov é de origem pobre e seus estudos são custeados com muita dificuldade por sua mãe e irmã.
A miserável vida em um pequeno quarto de pensão faz com que o personagem se torne um homem introspectivo e arredio. Aos poucos ele abandona o emprego e passa a ser assolado por um turbilhão de idéias revolucionárias e progressistas. Um típico intelectual crítico pós-iluminista, não se satisfaz mais com a moral cristã julgando-se acima do bem e do mal. Ainda como estudante, publica em um periódico um artigo em que defende essas idéias e afirma que os grandes homens da humanidade não têm o dever de se sujeitar às exigências éticas impostas pela sociedade.
Raskólnikov sente-se um super-homem e acredita que terá um papel de destaque na história, porém sabe que a aristocrática sociedade russa não lhe dará espaço. Sabe que precisa dar um salto inicial e que para isso ele deve ter dinheiro. Para deixá-lo ainda mais doente com essas idéias, o personagem recebe uma carta dizendo que sua irmã se casará e que o marido irá ajudá-lo. Revoltado com a notícia, por odiar o pretendente e julgar que o casamento da irmã seja apenas por interesse financeiro, Raskólnikov decide experimentar na prática a sua teoria.
Após deixar a casa de Aliena Ivánovna, Raskólnikov senta-se em um bar e escuta a conversa entre um jovem estudante e um oficial sobre a velha que acabará de visitar. O jovem diz:
“(...) Matem-na e apliquem o seu dinheiro em benefício da humanidade. E julgas que o crime – se é que nisso há crime – não seria sobejamente compensado por um sem-número de obras meritórias? Por uma só vida, milhares de vidas arrancadas à perdição! Por uma criatura de menos, cem criaturas restituídas à vida: é uma questão de aritmética! Quanto pesa na balança social a vida de uma mulher caquética, estúpida e ruim? (...)
- Sem dúvida, não é digna de viver – observou o oficial – Mas que queres? A natureza é assim...
- Oh, meu caro amigo, a natureza corrige-se, emenda-se, se não fosse assim, ficava-se sempre amarrado a preconceitos. Sem isso, não haveria grandes homens”. (DOSTOIÉVSKI, 2006, p. 73-4)

Esses argumentos são suficientes para convencê-lo de que a morte da velha usurária será um bem que ele fará à humanidade. Acredita que esse será o caminho para sua consagração e a partir dai passa a arquitetar o assassinato. Porém a execução é falha e além da velha, Raskólnikov também mata a sua irmã.
Depois do Crime, o Castigo. Raskólnikov não estava preparado psicologicamente para essa grande façanha e o romance se desenvolve em cima de sua culpa. Invadido por uma tortura moral inesperada e incompreendida por ele, o personagem vive severos debates internos sobre racionalizações e tentativas de justificar para si mesmo que o crime foi algo normal. Nesse momento ele se depara com uma rígida “moral individual” que até então desconhecia.
Acometido de uma febre inexplicável, Raskólnikov passa a ter alucinações e durante meses vive entre bruscas crises de irritação contra seus parentes e amigos, além de passar por súbitas efusões de generosidade e humanismos contra miseráveis como a família do alcoólatra Marmeladov, pai de Sônia, a quem logo confessaria os assassinatos.
Sônia é uma personagem importante na trama. Por necessidade financeira se prostitui, porém sua moral religiosa é inabalável. Ela se aproxima de Raskólnikov depois da morte do pai e entre eles nasce uma cumplicidade que permanece até o fim do livro.
Raskólnikov segue um calvário interminável e atordoado, chega a voltar ao local do crime, onde deixa uma preciosa pista para os investigadores. Cheio de remorso, cria uma relação cruel e doentia com o juiz de instrução responsável pelo caso e, em um arroubo de culpa, se entrega ao investigador.
Raskólnikov então é condenado e o romance termina com sua chegada aos campos de prisioneiros da Sibéria. Lá começa a questionar os seus próprios ideais e a influência que Sônia, através da fé cristã, exerce sobre ele:

“Debaixo do travesseiro ele tinha o Evangelho. Pegou-o maquinalmente. Aquele livro pertencia a ela, fora naquele mesmo volume que lhe havia lido outrora a passagem da ressurreição de Lázaro. No princípio da sua vida de prisioneiro, ele esperava que ela haveria de importuná-lo com religião, que viria constantemente se pôr a falar sobre o Evangelho. Mas, para seu espanto, nem uma única vez ela fez derivar a conversa para esse assunto, nem uma única vez lhe sugeriu o Evangelho. Fora ele próprio que lho pedira pouco tempo antes de sua doença, e ela levou-lhe sem dizer palavra. Até então ele não o tinha aberto. Tampouco o abriu dessa vez, mas um pensamento atravessou-lhe rapidamente o espírito: ´Poderiam agora as suas convicções ser diferentes das minhas? Poderei eu ter outros sentimentos, outras aspirações que não sejam as dela?...`” (Idem, p. 552)

Raskólnikov, mesmo confuso em relação aos seus sentimentos, estava certo que o cumprimento da sentença de sete anos imposta pela sociedade e a ajuda de Sônia seriam suficientes para que ele recebesse a total redenção de seus pecados, o que segundo Dostoiévski se configuraria como a “gradual renovação de um homem, de sua regeneração paulatina, da sua passagem progressiva de um mundo para o outro, do seu conhecimento de uma realidade nova, inteiramente ignorada até aquele momento” (Idem, p. 553).

Sábado, Outubro 28, 2006

Zero ou um? Três!

Confesso ter ficado muda durante todo o processo eleitoral. Mas devo dizer que a intenção foi mesmo essa. Mais do que ficar manifestando suposições sobre fatos truncados, o melhor é escutar e refletir. Foi o que fiz.


Hoje, véspera de eleição, digo que ouvi muito, vi tanto quanto e todos disseram o que quiseram e puderam. Foi escândalo com publicitário, sanguessuga, mensalão, PSDB, Governo FHC, dossiê... uma série de palavras e expressões que passaram a fazer parte do vocabulário popular e do pensamento dos que querem fazer a coisa certa.

Mas a pergunta que me faço hoje é: como acertar com tão poucas opções?
De um lado a decepção de um governo chafurdado na lama, de outro de um vampiro que suga o desenvolvimento nacional com suas ideologias voltadas para o segmento menos necessitado da sociedade.

Lamentavelmente a escolha fica entre o que pode ser menos pior, e já não é a primeira vez. De quando me tornei atuante nessas “decisões”, em 1998, até 2006, lá se vão limitadas possibilidades de eleger alguém com a esperança de que o país se torne um lugar melhor para se viver, o problema é que nunca nada acontece e as histórias de mentiras e ilegalidades se repetem.

Ainda sim acredito que anular não é opção, portanto, amanhã votarei mais uma vez no candidato que acho menos pior... torcendo para que o sonho de um Brasil melhor entre na grade televisiva dos próximos anos.

Quarta-feira, Junho 28, 2006

A enfermidade é histórica

Fala-se incessantemente que vivemos em uma sociedade doente, que somos diariamente bombardeados com mensagens subliminares e informações que nos fazem perder nossa humanidade e senso crítico. Colocam as pessoas como alienadas, diz-se que as mesmas perderam o poder de discernimento e até mesmo sua “poesia”. O contemporâneo tornou-se lixo por não se adequar ao que atualmente se considera arte.

Mas o que se esquece é que na verdade o contemporâneo é sempre doente para a sua própria época. Só para exemplificar, temos obras como “Melencolia” de Durer (e tantos outros pintores que reproduziram o mesmo tema) ou o niilismo constante nos discursos de Walter Benjamin. As sociedades continuamente criticaram e desacreditaram em tudo o que era produzido e, grandes obras e gênios só foram reconhecidos como tal, anos mais tarde. A insatisfação pelo o que se vê é nato do ser humano. Esse é o poder da crítica, é o “incômodo” que levanta as questões e faz com que a sociedade evolua.

Porém, é inconcebível deixar para trás o fato de que toda produção intelectual e artística invariavelmente esteve nas mãos de um seleto grupo, seja ele financeiramente privilegiado ou não. Quem tem dinheiro não precisa se preocupar com as contas que tem a pagar, por isso podem dedicar seu tempo às artes (é indispensável dizer que a grande maioria não padece dessa preciosidade), podem passar a vida inteira usando a criatividade para tentar se transformar em um imortal, um artista além da história. Não pretendo desmerecer o talento de tantos gênios, porém, enquanto se produzem livros e pinturas belíssimas, os demais usam a criatividade para conseguir sobreviver, e há quem diga que esses passaram pela vida e nada produziram – hipócrita e ingênuo pedir tanto de tantos.

Mas o que acontece então? Por que cada vez mais se fala em manipulação e falta de criatividade? Esse mal-estar da pós-modernidade – parafraseando o título de Zygmunt Bauman – incomoda mais por ser um problema contemporâneo a nós e ganha maiores proporções por estar somado a capacidade de propagação da informação que não existia em outras épocas. Os problemas também são outros, mas não podem ser considerados maiores ou piores, são apenas problemas.

Terça-feira, Junho 06, 2006

A justiça é igual para todos

A frase que dá título a esse artigo chega a ter um certo tom de comédia, principalmente se você tem acompanhado o noticiário nos últimos dias. Eu poderia citar o caso do Pimenta Neves, que matou a namorada a sangue-frio, é réu confesso e mesmo assim está respondendo o processo em liberdade. Poderia também relembrar o caso da mulher, que roubou um tablete de manteiga e ficou três meses presa, mas nada disso exemplificaria de forma tão eficaz as diferentes penas aplicadas pela justiça como acontece no caso que falarei a seguir.

Não lembro de ter conhecimento de um caso tão ilustrativo como o julgamento de Suzane von Richthofen e dos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos. Nele é possível perceber como a justiça brasileira se comporta de forma antagônica quando seus réus são de diferentes classes sociais. O crime é o mesmo, porém, desde o início, os julgamentos seguem rumos quase opostos. De um lado os irmãos pobres que socialmente são suscetíveis à marginalidade, não é verdade? Do outro a menina rica que foi iludida e acabou cometendo um crime. Pobre menina rica, se deixou convencer a matar seus pais, tão ingênua, tão menina... Esse caras malvados!

Ironias a parte, temos uma jovem que pediu para o namorado matar os seus pais e logo depois do crime, fez um churrasco em casa (lembra disso?). Hoje, ela dá entrevista posando de anjo, tem prisão domiciliar decretada, teve o julgamento adiado e bons advogados. É possível até que, se houver condenação, a mesma possa responder em liberdade. Enquanto isso, do lado “pobre” os irmãos que cometeram o crime seguem presos em penitenciarias. Tiveram que se apresentar no julgamento com o uniforme de presidiário e algemados, mal tem contato com a família e ainda tem dificuldades de comunicação com seus advogados, também tiveram o julgamento adiado, mas vão esperar na carceragem. Quem manda não se parecer com a Ana Hickmann? Esse advogado só pode estar de brincadeira...

O que me pergunto constantemente é se o crime é o mesmo, por que o julgamento tem que ser separado? Talvez tenha faltado algo na frase título. Vou mudar de “a justiça é igual para todos” para “a justiça é igual para todos que pertençam a mesma classe social”. Agora a história começa a fazer um pouco mais de sentido.

Terça-feira, Maio 16, 2006

O tema é São Paulo, o assunto é violência

É impossível não se sentir desconfortável com as notícias dos jornais sobre a onda de violência que assombra a cidade de São Paulo. Parece que hoje as coisas finalmente voltaram ao normal, mas essa série de atentados deve fazer com que paremos de ignorar o que está bem diante dos nossos olhos. A verdade é que não precisa ser policial, nem bombeiro, nem das forças armadas. O risco não é dos fardados, mas de todos nós.

Temos que colocar na cabeça que a Cidade Partida não tem um abismo de separação, pelo contrário, a linha é puramente social e imaginária. E o outro lado é mais forte, muito mais forte. Ver as imagens de São Paulo me trouxe a realidade que procurava ignorar, tanto por medo quanto por covardia. Do lado de lá tem pessoas muito bem armadas, algumas bastante inteligentes, outras dispostas a fazer qualquer coisa pelo próprio bem. Eles são organizados e não sofrem do mal que nos assombra, a corrupção. Daquele lado não há necessidade de desvio de verbas, pois todos ganham dinheiro, alguns mais, outros menos, mas ganham... Está certo que arriscam a própria vida, mas não nos arriscamos aqui também?

Escondidos em moralidades e hipocrisias estamos perdendo força e lugar para aqueles que, se quiserem, podem tirar você da sua própria casa apenas com uma arma na mão. O meu objetivo não é dizer que devemos aprender com eles, se é o que parece. Mas devemos ter consciência de que enquanto damos os nossos jeitinhos para conseguirmos ser beneficiados em alguma coisa, estamos abrindo cada vez mais o verdadeiro abismo em que vivemos, o abismo da desigualdade que a cada dia leva mais soldados para o lado de lá.